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Silvio do Dendê: a tradição se mantém em Boipeba

06/04/26

Silvio do Dendê: a tradição se mantém em Boipeba

  • 6 de abr
  • 7 min de leitura

Sílvio do Dendê de Boipeba é um nativo que carrega consigo uma linda história de resistência cultural. Visitá-lo é uma experiência única, a chance de aprender sobre tradições muito antigas que são parte da rica história desse lugar encantador. 

Ir até Cova da Onça para conhecer sua casa de farinha e onde produz o azeite de dendê de pilão é uma das mais interessantes opções do que fazer em Boipeba.

Continue conosco e conheça a história de Sílvio, o que ele faz, como ele recebe os turistas e o que fazer por lá!

Sílvio do Dendê pilão casa do dendê Boipeba
Sílvio do Dendê e seu pilão na casa do dendê em Cova da Onça - Boipeba

História de Sílvio do Dendê: resumo da sua trajetória

A família de Silvio do Dendê é de Orobó, povoado quilombola e histórico da cidade de Valença, e tinha como cultura todas as práticas de sobrevivência herdadas do processo colonial, que após a abolição em 1888, se tornaram uma marca da região conhecida como Costa do Dendê

Como exemplo, da mandioca faziam farinha e demais derivados, da piaçava extraiam a palha utilizada na manufatura e construção civil, do dendê produziam o famoso azeite baiano, e muitas outras. 

Entre 1972 e 1973, seus pais e irmãos mais velhos viajaram para Boipeba à procura do avô, que há anos morava na ilha e trabalhava em uma fazenda. Sílvio nasceu no povoado de Cova da Onça em 1974, sendo o único boipebano legítimo de uma família que, ao chegar na ilha, voltou a exercer as mesmas atividades extrativistas que praticava em Orobó.

Foto antiga produção artesanal de azeite de dendê
Dendê sendo cozido para produção artesanal do azeite - Boipeba

Foi assim que, desde tenra idade, Sílvio iniciou na lida com a natureza, aprendendo as práticas culturais seculares que garantiram o sustento dos seus ancestrais e também da sua geração. 

Com cinco anos, andava atrás do pai que, muito cuidadoso, ensinou o Silvio como cortar e retirar o dendê da palmeira. Ele cortava os dendezeiros dos vizinhos e fazia todo o trabalho duro, que é a produção do azeite de dendê no pilão. 

O pai também plantava mandioca nas terras onde trabalhava, com permissão do dono da fazenda. E assim, a família se mantinha produzindo o azeite de dendê e a farinha de mandioca. Aos doze anos, começou a subir em árvores e nas palmeiras de dendê, conhecidas como dendezeiros, como ele mesmo conta:

“Aí eu, meu irmão e um tio meu que cresceu junto com a gente, que era o caçula dos meus tios, saía para pescar de manhã, chegava nove horas, dez horas do dia. Aí não tinha outro tipo de divertimento, não tinha energia elétrica, não existia televisão. A brincadeira era brincar de gude e fazer carrinho de tala de coqueiro”.

Logo Sílvio aprendeu a utilizar a peia do pai, um instrumento artesanal e secular produzido em corda ou couro, que funciona como um cinto de segurança. A peia é presa aos pés e pernas, garantindo a segurança na subida de coqueiros, dendezeiros e outras espécies de palmeiras. 

Com ela, Sílvio ficou tão habilidoso na arte de cortar dendê que, aos dezesseis anos, passou a realizar a colheita de dendê juntamente com o pai. Logo assumiu a função solitariamente, já que o pai estava ficando idoso. Em 2001, Sílvio casou-se com Dona Maria Auxiliadora e decidiram morar em Salvador. 

Teve que aprender outra profissão na cidade grande, a de encanador hidráulico, mas nunca esqueceu suas raízes e sempre tinha em mente que um dia voltaria para Boipeba. Foram 15 anos vivendo no Bairro da Paz quando, em 2015, decidiu retornar para sua terra em razão da sua mãe estar bem doente. Pouco tempo depois, ela faleceu.

Sílvio do Dendê Boipeba
Sílvio do Dendê mostrando fotos e explicando sobre a produção artesanal do azeite de dendê

Para não deixar o pai sozinho, que já passava dos oitenta anos, decidiu ficar em Boipeba e assumir o negócio da casa de farinha da família

Ele e os familiares iniciaram uma obra de alvenaria para melhorar a infraestrutura, mas o pai veio a óbito antes da inauguração da mesma. 

Com o conhecimento adquirido na juventude, voltou a produzir farinha de mandioca e especialmente o azeite de dendê de pilão, mantendo viva uma prática que, em razão das facilidades tecnológicas, vem sumindo na contemporaneidade. 

Para Sílvio, produzir o azeite de dendê no pilão e os produtos da mandioca na casa de farinha é uma maneira de manter viva a tradição dos seus ancestrais, algo que não pretende parar enquanto estiver vivo!

A casa de farinha de Silvio do Dendê

Beiju artesanal casa de farinha Boipeba
D. América, irmã de Sílvio do Dendê, produzindo beijú de tapioca artesanal na casa de farinha

A casa de farinha de Sílvio do Dendê, em Boipeba, é um barracão com paredes em alvenaria e cobertura de telhas estilo “Eternit”. 

O espaço é comunitário e conta com a presença de diversos produtores e famílias da ilha, que lá encontram a estrutura e o maquinário ideal para fazer a farinha de mandioca e o tão famoso beiju da Bahia.

Segundo Sílvio, “alguns sabem trabalhar por conta própria, não precisando da minha ajuda. Mas outros, sou eu que manuseio as máquinas, que são mais modernas e diferentes das engenhocas de antigamente. Como a casa de farinha é da minha família, cobramos apenas um percentual da produção deles pela utilização do espaço, manutenção do equipamento e pelo meu trabalho também”.

O processo da farinha de goma da mandioca e o delicioso beiju

A mandioca chega na casa de farinha, é raspada, lavada, triturada, para novamente ser lavada para retirar a goma que faz o beiju. 

Essa goma é colocada para assentar nas bacias, depois a água é escorrida, coloca-se panos e caroços enxutos da farinha sobre a goma para enxugá-la ainda mais e retirar todo o excesso de água. 

Sílvio do Dendê farinha de goma beijú casa de farinha Boipeba
Sílvio do Dendê mostrando a farinha de goma produzida na casa de farinha

Depois, é colocado um pouco de farinha espalhada sobre a goma para ela ficar bem sequinha e, por fim, ser peneirada. Essa farinha da goma é o produto final para a feitura do beiju.

“... é a Farinha Delícia, a melhor farinha da ilha que é feita na casa de farinha de Sílvio do Dendê”, diverte-se o anfitrião. 

O beiju é então preparado em um forno a lenha com duas grandes bocas, onde estão os tachos de cerâmica (barro). É sobre os tachos aquecidos que o beiju é produzido em comprimento de metro, para depois serem cortados os pedaços que são comercializados para a ilha e para os turistas que estão visitando o local.

Essa parte é conduzida pelas mãos habilidosas de D. América e D. Maria, irmãs de Sílvio. E o beiju, feito apenas com farinha de goma, açúcar, sal, coco e canela, é uma das mais deliciosas iguarias que já comi! 

Para ver a produção do beiju e comê-lo quentinho e recém saído do tacho, basta ir à tarde, turno em que D. Maria e D. América costumam trabalhar.

A casa do dendê

Construída rusticamente com pilares de pau e cobertura de telha, o espaço conhecido como Casa do Dendê é pequeno e aberto, sendo possível admirar a vegetação nativa nos fundos.

No local há um grande pilão de madeira, que segundo Sílvio, “...é onde a mágica acontece…”. A Casa do Dendê também dispõe de uma carroça para transporte do dendê e alguns grandes tonéis, onde o dendê é cozido, dissolvido e frito com água.

O processo da extração do azeite de dendê de pilão

Tudo começa com Sílvio se dirigindo até a mata da ilha, onde identifica os dendezeiros carregados com dendê maduro. Ele sobe nos altos dendezeiros com uma peia e corta o dendê, para depois armazená-lo em sua carroça. Já na Casa do Dendê, os frutos são debulhados e cozidos em dois tonéis. 

Márcio Torres Sílvio do Dendê Boipeba
Sílvio do Dendê e o autor deste artigo, o historiador Márcio Torres

Depois são escorridos em uma grande cuba e colocados no pilão, sendo batidos durante cerca de 25 a 30 minutos até o dendê se desmanchar em forma de bagaço. 

Após esse processo e com o dendê já pilado, é inserido em outros dois tonéis com água dentro para dissolver, separando o bagaço do coquinho onde está a polpa do dendê. Dessa separação do bagaço e do coquinho, flutua uma polpa na água, que vai se transformar no azeite.

A polpa é colocada em um tonel onde é frita na água, momento em que separa-se o azeite já pronto da água. Depois, o azeite é engarrafado para o consumo. Sílvio conta que, para a produção em dois tonéis, são necessários oito dias de trabalho duro.

Ao final da visita, não deixe de comprar pelo menos uns 3 litros desse maravilhoso azeite de dendê de pilão, realmente faz toda a diferença e torna pratos como a moqueca e o bobó de camarão muito mais saborosos.

O geladinho da Dona Maria Auxiliadora

Dora é o apelido de Maria Auxiliadora, a esposa de Sílvio que, além de auxiliar o marido na gestão administrativa, também produz e comercializa deliciosos geladinhos de frutas da ilha. Um momento essencial do passeio que pode ficar para o final, antes do retorno. 

Barraca Sílvio do Dendê Boipeba
Barraca Sílvio do Dendê, onde Dora comercializa seus geladinhos, azeite de dendê, cocada e outros produtos feitos na propriedade

Os geladinhos mais exóticos são o de jaca e o de mangaba, mas também tem de manga, muitas outras frutas e até chocolate.

Barraca de Sílvio do Dendê

A barraquinha de Sílvio fica em frente à sua casa, é de madeira, rústica, e onde são comercializados diversos produtos, como o geladinho de D. Dora, azeite de dendê e deliciosas cocadas tradicionais da Bahia com diversos sabores. 

Como chegar em Sílvio do Dendê

A maneira mais prática, rápida e confortável para chegar na propriedade de Sílvio do Dendê é contratando o quadritáxi da ilha. A propriedade fica bem próxima de Cova da Onça, a cerca de 5 a 10 minutos de caminhada. Basta dizer ao piloto do quadriciclo que quer ir para Sílvio do Dendê e ele te levará direto.

Outra alternativa é realizar passeios de quadriciclo e UTV, que, entre diversas praias lindas, faz uma parada especial na propriedade de Sílvio para que os turistas possam desfrutar um pouco de tudo o que foi narrado neste artigo.

Saber mais sobre o Sílvio do Dendê em Boipeba é, certamente, uma grande atração da ilha e, para que sua viagem seja ainda mais cultural, conheça agora a Feira de Artesanato, uma oportunidade de adquirir lindas peças e lembranças muito especiais produzidas por artistas e artesãos da região.


Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com


 
 
 

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